IA para as pessoas, não apenas para a produtividade

IA para as pessoas, não apenas para a produtividade

O apresentador abriu o painel com uma provocação que vale repetir: a introdução que ele leu no palco poderia ter sido gerada por qualquer pessoa, em qualquer país, com um laptop e o mesmo prompt. Mesmo output. E esse, disse ele, é exatamente o problema e a oportunidade.

Esse painel do Brazil at Silicon Valley juntou o Fernando Gadotti, fundador da Tako (plataforma de IA para legislação trabalhista brasileira, com aporte de 175 milhões de reais da Ribbit Capital e a16z), o Leonardo Bursztyn, professor de economia na Universidade de Chicago e CEO da Nomo (que usa ciência comportamental para ajudar pessoas a terem uma relação mais saudável com tecnologia), e a Linda Rottenberg, cofundadora e CEO da Endeavor.

E o que saiu dali tem tudo a ver com o que a gente discute no dia a dia de gestão de pessoas, mesmo que ninguém no palco estivesse falando diretamente com CHROs.

O Fernando trouxe um número que deveria incomodar qualquer profissional de RH: 2,5 milhões de processos trabalhistas por ano no Brasil. Mais de 90% dos processos de litígio trabalhista do mundo inteiro acontecem aqui. Empresas são sufocadas por isso. E ele construiu a Taco exatamente nessa dor, ingerindo toda a legislação trabalhista brasileira, atualizando diariamente, criando uma base de conhecimento que modelos genéricos de IA simplesmente não conseguem alcançar.

O ponto que me interessa não é o produto em si, é o que ele revela. A complexidade regulatória brasileira não é só um problema. É um diferencial competitivo brutal para quem sabe transformá-la em solução. E aqui cabe uma pergunta honesta: quantas áreas de RH estão sentadas em cima dessa complexidade reclamando dela, em vez de usar IA para domá-la?

O Fernando foi claro: IA em ambiente empresarial não é abrir um ChatGPT e digitar um prompt. É entender workflows, jobs to be done, nuances regulatórias. E quando você pensa em adoção de IA dentro de uma empresa, não é só uma questão funcional. Tem o lado emocional, tem o lado político. Se você é gestor e tem um time, esse time é parte de quem você é. Vender IA como substituição de pessoas é uma proposição perdedora. O caminho é começar pela camada de aumento: o que se torna possível para humanos fazerem porque agora existe volume e velocidade que antes não existiam?

Para comunicação interna, essa é a narrativa que precisa ser construída. Não é “IA vai substituir seu trabalho”. É “IA vai mudar o que o seu trabalho significa”. E a diferença entre essas duas frases é a diferença entre uma organização que gera pânico e uma que gera engajamento.

O Leonardo trouxe uma camada que normalmente fica de fora dessas conversas sobre IA: o custo humano da conveniência. Tecnologia removeu atrito de quase tudo que fazemos. E atrito, ele argumentou, é necessário. A gente cai, levanta, é rejeitado, aprende. Vira gente melhor, mais forte. E contou que a cabeleireira dele atendeu duas adolescentes que não conseguiam falar diretamente com ela. Precisaram usar o ChatGPT como intermediário porque a interação era dolorosa demais.

Estamos removendo até o atrito mínimo de conversar com outro ser humano. E quando você traz isso para o contexto organizacional, a reflexão é séria. IA vai afetar não só o trabalho, mas as interações sociais dentro das empresas. A forma como as pessoas se comunicam, tomam decisões, compram, se relacionam. Agentes de IA podem começar a fazer compras por nós, tomar decisões por nós. E o Leonardo fez uma pergunta que deveria ser norte para qualquer gestor de pessoas: como construímos IA que mantém as pessoas relevantes? Que preserva a experiência humana?

A Linda Rottenberg costurou tudo isso com a perspectiva de quem acompanha empreendedores há três décadas. Quando a Endeavor começou, não existia sequer uma palavra em português para “empreendedor”. Hoje, o Brasil exporta empresas, fundadores e talento para o mundo. E ela trouxe uma provocação que me ficou: brasileiros conhecem complexidade, conhecem volatilidade. E adivinhem? O resto do mundo agora também está lidando com complexidade e volatilidade. E precisa de quem sabe navegar nisso.

O que junta tudo isso para quem trabalha com pessoas é uma mudança de papel que já está acontecendo, a gente reconhecendo ou não. Comunicação interna não pode mais ser a área que informa. Precisa ser a área que traduz. Que pega uma transformação tecnológica assustadora e constrói uma narrativa que as pessoas consigam habitar. Que explica não só o que está mudando, mas o que permanece humano nisso tudo.

Porque a complexidade do Brasil não é só regulatória. É humana. E quem souber trabalhar com essa complexidade humana, de forma intencional e estratégica, vai ter uma vantagem que nenhum modelo de linguagem consegue replicar.

Palestra: AI for People, Not Just Productivity: What Building from Elsewhere Reveals
Fernando Gadotti + Leonardo Bursztyn + Linda Rottenberg
Tako, Nomo and Endeavor

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