Lições do Instagram para a Anthropic

Lições do Instagram para a Anthropic

Essa era, de longe, uma das conversas mais esperadas da minha agenda no Brazil at Silicon Valley. E entregou.

Mike Krieger, paulistano, cofundador do Instagram, agora liderando o Anthropic Labs, e Jade Leif, general partner da Coatue, o fundo que liderou a última rodada de investimento da Anthropic. Duas pessoas que não estão especulando sobre o futuro da IA. Estão construindo e financiando esse futuro agora.

O Mike contou que fez um experimento pessoal: pediu ao Claude para recriar o Burbn, o aplicativo que precedeu o Instagram, na sua forma final antes do pivot. Levou duas horas. O que ele e Kevin Systrom levaram meses para construir, iterando, mostrando para pessoas, entendendo o que funcionava e o que não funcionava.

Mas aí veio a reflexão que transforma essa história de curiosidade técnica em algo muito mais profundo. Ele disse que a construção rápida não substitui a jornada de descoberta. Que o processo de escolhas, de tentativas, de perceber o que surpreende e o que decepciona, é insubstituível. Comparou com séries de TV: tem as que soltam todos os episódios de uma vez e as que você acompanha semana a semana. O desenvolvimento de produto é como a segunda. A jornada faz parte do resultado.

E citou Ted Chiang, escritor de ficção científica, sobre criatividade: criatividade é feita de muitas escolhas. Se você desse um prompt com mil escolhas e a IA devolvesse algo oposto a todas elas, talvez aí houvesse algo que refletisse a criatividade humana. O ponto é que cada escolha incremental que você adiciona ao processo torna o produto mais seu. Mas as escolhas certas só surgem da experiência de construir.

Para quem trabalha com pessoas e comunicação interna, essa reflexão é ouro. Porque existe uma tentação enorme agora de usar IA para pular etapas. Gerar a campanha, o programa, a estratégia em minutos. Mas se você não passou pelo processo de entender o problema, de conversar com as pessoas, de testar e errar, o que sai é tecnicamente competente e humanamente vazio. A IA colapsa o tempo de construção, como a Sheryl Chin disse em outro painel. Mas se colapsa também o tempo de pensar, o resultado empobrece.

Sobre o que está acontecendo dentro da Anthropic, o Mike foi transparente de um jeito raro. Quando chegou, em 2024, eram trinta engenheiros de produto. Hoje são mais de quatrocentos. E ele fez uma escolha que vai contra tudo que se ensina em engenharia de software: reescreveu partes inteiras da infraestrutura. O mantra clássico diz que nunca se reescreve um sistema. Ele acha que esse mantra quebrou. Com os modelos atuais, faz sentido refazer grandes partes do stack. E está vendo empresas de fora da Anthropic começando a fazer o mesmo.

Para gestão de pessoas, isso tem uma implicação direta sobre como pensamos processos internos. Se a tecnologia permite reconstruir do zero de forma viável, por que continuamos remendando sistemas, processos e programas que nasceram numa realidade completamente diferente? A intranet que foi desenhada antes de IA existir, o programa de onboarding que não mudou em cinco anos, a pesquisa de clima com o mesmo formato de uma década atrás. Talvez seja hora de parar de melhorar e começar a repensar.

A conversa sobre o Anthropic Labs, a nova área que o Mike lidera, trouxe um modelo de gestão que vale estudar. A cada duas semanas, todo projeto passa por uma decisão de financiamento ou encerramento. Em quatro semanas após o reboot, dois projetos já tinham sido cortados. Não porque falharam, mas porque entregaram o aprendizado que podiam e continuar não fazia mais sentido. O custo de oportunidade de manter pessoas talentosas em algo que não vai ser o próximo Claude Code é alto demais.

Para RH, essa lógica inverte como a maioria das organizações trata projetos internos. A gente tende a manter programas rodando porque já foram aprovados, porque tem budget, porque alguém vai ficar chateado se cancelar. E enquanto isso, as melhores pessoas ficam presas em iniciativas que já deram o que tinham que dar. Criar uma cultura onde encerrar um projeto é celebrado como aprendizado, não punido como fracasso, é provavelmente uma das mudanças culturais mais importantes que uma área de pessoas pode liderar agora.

Para fundadores e empresas brasileiras, o Mike foi direto: nunca foi tão possível ir longe sem levantar capital logo de cara. Dá para prototipar, lançar, conseguir os primeiros usuários com as ferramentas que existem hoje. Isso muda a dinâmica de poder entre fundador e investidor. E o diferencial mais defensável neste momento não é técnico. É conhecimento profundo de mercado, de indústria, de contexto regional. Os insights que estão mais distantes das capacidades dos modelos são justamente os mais valiosos.

E para grandes empresas, o conselho foi claro: abram mão de um pouco de controle. A cultura de “vamos escolher uma tecnologia e usar por dez anos” não funciona mais em IA. As empresas que estão se destacando são as que experimentam em paralelo, pilotam em departamentos diferentes, aceitam que o stack vai mudar e que isso é sinal de saúde, não de caos.

A pergunta que trago de volta: a sua organização está permitindo que as pessoas reconstruam o que precisa ser reconstruído? Ou está protegendo sistemas e processos que já cumpriram seu papel, só porque dá trabalho começar de novo?

Porque nunca foi tão barato recomeçar. E nunca foi tão caro insistir no que já não funciona.

Palestra: Lessons from Instagram to Anthropic
Mike Krieger
Anthropic

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